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sexta-feira, 24 de julho de 2009

NOITES, ESTRANHAS NOITES, DOCES NOITES


Noites, estranhas noites, doces noites!
A grande rua, lampiões distantes,
Cães latindo bem longe, muito longe.
O andar de um vulto tardo, raramente.

Noites, estranhas noites, doces noites!
Vozes falando, velhas vozes conhecidas.
A grande casa; o tanque em que uma cobra,
Enrolada na bica, um dia apareceu.

A jaqueira de doces frutos, moles, grandes.
As grades do jardim. Os canteiros, as flores.
A felicidade inconsciente, a inconsciência feliz.

Tudo passou. Estão mudas as vozes para sempre.
A casa é outra já, são outros os canteiros e as flores
Só eu sou o mesmo, ainda: não mudei!


Augusto Frederico Schmidt

POR QUE NÃO PENSARAM NISSO ANTES?





quinta-feira, 23 de julho de 2009

TERRA -Caetano Veloso

HEAL THE WORLD

BEBÊS PATINADORES

...uma cidadezinha


Era um lugar em que Deus ainda acreditava na gente...
Verdade que se ia à missa quase só para namorar
mas tão inocentemente que não passava de um jeito,
um tanto diferente, de rezar enquanto, do púlpito,
o padre clamava possesso contra pecados enormes.
Meu Deus, até o Diabo envergonhava-se. Afinal de contas,
não se estava em nenhuma Babilônia... Era só uma cidade pequena,
com seus pequenos vícios e suas pequenas virtudes: um verdadeiro
descanso para a milícia dos Anjos com suas espadas de fogo.
- Um amor! Agora, aquela antiga cidadezinha está dormindo
para sempre em sua redoma azul, em um dos museus do Céu.


Mário Quintana

quarta-feira, 22 de julho de 2009

IMPOSSÍVEL


Impossível

Sozinho não posso
carregar um piano
e menos ainda um cofre-forte.
Como poderia então
retomar de ti meu coração
e carregá-lo de volta?
Os banqueiros dizem com razão:
"Quando nos faltam bolsos,
nós que somos muitíssimo ricos,
guardamos o dinheiro no banco".
Em ti
depositei meu amor,
tesouro encerrado em caixa de ferro,
e ando por aí
como um Creso contente.
É natural, pois,
quando me dá vontade,
que eu retire um sorriso,
a metade de um sorriso
ou menos até
e indo com as donas
eu gaste depois da meia-noite
uns quantos rublos de lirismo à toa.


Vladimir Mayakovsky

ESCULTURAS







- Jean-Pierre Augier -

terça-feira, 21 de julho de 2009

GUERRA DE BONECOS - Animação -


HUMOR

ALMAS INDECISAS


Almas indecisas

Almas ansiosas, trêmulas, inquietas,
Fugitivas abelhas delicadas
Das colméias de luz das alvoradas,
Almas de melancólicos poetas.

Que dor fatal e que emoções secretas
vos tornam sempre assim desconsoladas,
Na pungência de todas as espadas,
Na dolência de todos os ascetas?!

Nessa esfera em que andais, sempre indecisa,
Que tormento cruel vos nirvaniza,
Que agonias titânicas são estas?!
Por que não vindes, Almas imprevistas,
Para a missão das límpidas Conquistas
E das augustas, imortais Promessas?!


Cruz e Sousa

PASSAPORTE


Passaporte

Dava adeus a si mesmo
na ponte sobre o cais.
A cada hora, partia-se
para não voltar mais.


Mauro Mota

segunda-feira, 20 de julho de 2009

CINEMA BRASILEIRO


ERA UMA VEZ...
O filme estréia agora dia 25 de julho nos cinemas.
Sinpose: O filme gira em torno de uma história de amor impossível, entre André, um jovem morador do moro do Cantagalo, no bairro de Ipanema, e Nina, uma menina nascida e criada na Av. Vieira Souto, a mais valorizada da região do Rio de Janeiro. O romance de Dé ( Thiago Martins) e Nina (Vitória Frate) evoca a história de Romeu e Julieta. O fator impeditivo (e trágico) ao amor, que na trama shakesperiana tem a forma da rivalidade entre as famílias Montecchio e Capuleto, no filme é dado pelo fosso econômico e social entre os amantes. O diretor Breno Silveira (“Os dois filhos de Francisco”) busca um outro ângulo para abordar o confronto entre o morro e o asfalto no Rio de Janeiro.

HUMOR

Vanessa da Mata e Ben Harper -- Boa sorte/Good Luck - VMB

EMBARCO NA ONDA


Embarco na onda... Feliz dia do amigo pra todos vocês!
Não sou muito chegada a dia disso, dia daquilo não. Mas já recebi trocentas mensagens me desejando felicidades neste dia e de pessoas queridas me jurando amizade eterna. Fiquei feliz mesmo. Retribuo aqui neste post, muito rapidamente. po Um beijo pra vcs. todos, meus amigos queridos de hoje, de ontem e, quem sabe, de amanhã. O tempo nos torna cada vez mais seletivos mas neste particular a vida sempre me reserva gratas surpresas. Já sei que vou passar o dia lembrando dos muitos amigos que já se foram e das histórias que vivemos juntos. Saudades daqueles com quem não posso conviver tão de perto como gostaria. Que bom a gente ter agora a internet, que dribla a até então implacável geografia que nos afastava tão irremediavelmente. Estamos juntos de novo e isso é bom demais.

SONETO


Soneto

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
E tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!

Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na monumentalidade do NÃO SER!


Augusto dos Anjos

domingo, 19 de julho de 2009

DÚVIDA


DÚVIDA

Amor
a tua voz
e a minha sensação de vácuo
de liberdades paralelas
ontem
esquinas encontradas
no ângulo dos lábios
Amor
a tua lâmpada de nevoeiro
sulcado
manhãs de aves
súbitas
com noites inventadas
nada
é o teu rosto
insetos de vertigem
sem paisagem.

Maria Tereza Horta

TESTAMENTO DO POETA


Testamento do Poeta

Todo esse vosso esforço é vão, amigos:
Não sou dos que se aceita... a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
Não peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
De amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
Que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje
Que tudo e todos vejo reduzidos,
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.

Para reaver, porém, todo o Universo,
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!....
Basta-me o gesto de contar um verso.


José Régio

ENVOI


Envoi

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.


Ezra Pound