VISITANTES

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

SARA TAVARES - Ponto de Luz -

BARQUINHO DA ESPERANÇA

VIMOS CHEGAR AS ANDORINHAS



Vimos chegar as andorinhas
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos


Agora
esperemos o verão do teu nascimento
tranqüilos, preguiçosos


Tão inseparáveis as nossas fomes
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos


Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços


Virás
como a luz maior
no solstício de junho.


Rosa Lobato de Faria

Vincent Delerm : Les gens qui doutent live La Cigale

´VICENT DELERM - Marine -

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

AS MÃOS PRESSENTEM



As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada



Al Berto

IDENTIDADE


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem inseto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço


Mia Couto,
in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

PAISAGEM


Percorro esta paisagem com os olhos
e vejo grandes árvores perfiladas contra o vento,
mas o vento é a luz que esvanece nos meus olhos
as árvores que não vejo como vejo ou imagino.

Nos meus olhos há florestas
ervas que se erguem para ser árvores
no seio interior da paisagem,
esta paisagem que eu percorro com os olhos.

E é esse o caminho liberto a esvoaçar em bandos de aves
que vêm de longe, donde o vento sopra
o ânimo dum milagre feito mágica
de azuis e verdes no cinzento da minha terra.


Vieira Calado

LAURA VEIRS - July Flame -

LAURA LEIRS - Dont' Lose Yourself -

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

GIPSY KINGS - Si Tu Me Quieres -

SECRETA VIAGEM



No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!
.

David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

GIPSY KINGS - MOSAIQUE -

domingo, 31 de janeiro de 2010



OS AZEITONAS - Já Não Te Sinto Em Mim -

HUMANOS - Já Não Sou Quem eu Era -

HUMANOS - Muda De Vida -

HUMANOS - O Corpo É Que paga -

HUMANOS - Estou Além -

PELICANO


Pelicano

Onda que vais morrendo em nova onda,
mar que vais morrendo noutro mar,
assim a minha vida se desprenda e do meu sumo
escorra a vida para as bocas que se finam
de desejar.

Ó dia que vais escoando como os rios
e empalideces rostos e cabelos,
traze a palavra para a incerteza
dos que vagueiam à deriva;
a bandeira amarela se rasgue
e dos farrapos se gere outra cor.

Ó dia correndo e findando,
some-te lá no cimo da fraga
mas deixa que no teu rasto fique o sangue
anunciando a esperança noutro dia.

Sê como a onda que morre para outra começar.


Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"