De tudo o que se pode guardar guarde o silêncio objetos são perecíveis palavras... dispensáveis o silêncio é enfático e duradouro ainda que por alguns instantes
a reflexão é do silêncio o ancoradouro fere com estacas pontiagudas a alma das palavras serpenteia como lâminas cortantes
o silêncio é grilo falante quando se colhe sentimentos filho da verborragia corta o ar como uma cotovia
nos versos da poesia o silêncio é chama intrépida travestido de palavras em seda fria som estrepitoso ecoa solitário nas cavernas da mente
entre palavras e palavras a pausa colossal do silêncio é brado veemente lacuna onde se deita o que não é dito ou dito de modo surpreendente no suspiro abafado no canto dos olhos no sorriso embotado
brada o silêncio o que os pulmões condensam revela o que os seres mais sensíveis pensam faz imenso barulho em mim é começo e é o fim...
O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias, como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo, mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer. Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar, que eu amava quando imaginava que amava. Era a tua voz que dizia as palavras da vida. Era o teu rosto. Era a tua pele. Antes de te conhecer, existias nas árvores e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde. Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
Onde está meu quintal amarelo e encarnado, com meninos brincando de chicote-queimado, com cigarras nos troncos e formigas no chão, e muitas conchas brancas dentro da minha mão?
E Júlia e Maria e Amélia onde estão?
Onde está meu anel e o banquinho quadrado e o sabiá na mangueira e o gato no telhado?
- a moringa de barro, e o cheiro do alvo pão? E a tua voz, Pedrina, sobre meu coração? Em que altos balanços se balançarão?...
Em 7 de agosto de 1942, nasce Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso, o quinto dos sete filhos de José Telles Velloso, funcionário público do Departamento de Correios e Telégrafos, e de Claudionor Vianna Telles Velloso. Em Santo Amaro da Purificação, pequena cidade do Recôncavo Baiano, próxima de Salvador.
Força estranha
Eu vi um menino correndo eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino, eu pus os meus pés no riacho. E acho que nunca os tirei. O sol ainda brilha na estrada que eu nunca passei. Eu vi a mulher preparando outra pessoa O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga. A vida é amiga da arte É a parte que o sol me ensinou. O sol que atravessa essa estrada que nunca passou. Por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha no ar. Por isso é que eu canto, não posso parar. Por isso essa voz tamanha. Eu vi muitos cabelos brancos na fonte do artista o tempo não pára no entanto ele nunca envelhece. Aquele que conhece o jogo, o jogo das coisas que são. É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão. Eu vi muitos homens brigando. Ouvi seus gritos Estive no fundo de cada vontade encoberta, e a coisa mais certa de todas as coisas. Não vale um caminho sob o sol. E o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol. Por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha no ar. Por isso é que eu canto, não posso parar. Por isso essa voz tamanha. Caetano Veloso
"Eu gosto de delicadeza, seja nos gestos, nas palavras, nas ações, no jeito de olhar, no dia-a-dia e até no que não é dito com palavras, mas fica no ar..."
De Lisboa recordo os jardins sonolentos, as ruas tortuosas do bairro de Alfama e a luz secreta das tardes junto ao cais onde juntos bebemos os movimentos da água. E recordo as noites sem penumbra, o mar azul, a rota dos comboios que perdemos naquele junho radiante e luminoso. Hoje escuto o seu eco enquanto a névoa flutua nas colinas e rangem de saudade os carris, a hera, os postigos e os fundos de água entre sereias desaparecidas. Não sei se o recordo ou somento esqueço o peso intransitável das sombras. Pois ainda que o tempo arraste para o nada a juventude, a felicidade, os tesouros, ainda que não volte jamais o paraíso, será sempre primavera em Lisboa: é que não vejo na memória nem nos seus mapas esse ónus obscuro do regresso.
O olhar singular de uma mulher galante Que desliza para nós como o raio branco Que a lua ondulosa envia ao lago trémulo Quando quer banhar nele a beleza preguiçosa;
O último saco de escudos nas mãos de um jogador; Um beijo libertino da magra Adeline; Os sons de uma música enervante e carinhosa, Semelhante ao grito distante da dor humana,
Tudo isto não vale, ó garrafa profunda, Os bálsamos penetrantes que a tua pança fecunda Reserva ao coração sedento do poeta piedoso;
Tu deitas-lhe a esperança, a juventude e a vida, — E o orgulho, tesouro da indigência, Que nos torna triunfantes e iguais aos Deuses!