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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Chove muito, chove excessivamente…



 
Chove muito, chove excessivamente…
Chove e de vez em quando faz um vento frio…
Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.


Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela, de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?…
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração…


Álvaro de Campos

sábado, 15 de junho de 2013

Festa

 
 
Desdobrei a minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o meu itinerário
até ao meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E bebi licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.

Alejandra Pizarnik
trad. Alberto Augusto Miranda

terça-feira, 11 de junho de 2013

E partirei...




 
 
…E partirei. E ficarão os pássaros
cantando;
e ficará o meu quintal, com a sua árvore verde
mais o seu poço branco.

O céu, todas as tardes estará azul e calmo;
e tocarão, como esta tarde estão tocando
os sinos do campanário.

Irão morrendo aqueles que me amaram;
e a cada ano se fará novo o meu povoado;
e no tal recanto do meu quintal florido e calado
o meu espírito vagueará, nostálgico…

Eu partirei; e ficarei só, sem lar, sem a árvore
verde, sem o poço branco
sem o céu azul e calmo…

E ficarão os pássaros cantando.

juan ramón jiménez
In poemas agrestes/1911


segunda-feira, 10 de junho de 2013

10 de Junho - Dia de Camões - Dia de Portugal -


 
Leda serenidade deleitosa,
Que representa em terra um paraíso;
Entre rubis e perlas doce riso;
Debaixo de ouro e neve cor-de-rosa;

Resença moderada e graciosa,
Onde ensinando estão despejo e siso
Que se pode por arte e por aviso,
Como por natureza, ser fermosa;

Fala de quem a morte e a vida pende,
Rara, suave; enfim, Senhora, vossa;
Repouso nela alegre e comedido:

Estas as armas são com que me rende
E me cativa Amor; mas não que possa
Despojar-me da glória de rendido.

Luís Vaz de Camões (1524-1589)

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Lugar - Comum

 
 
Quisera ser de teu sonho
a âncora firme,
o porto visível,
o norte constante.
Quisera ser, de tua esperança,
a luz brilhante,
o caminho aberto,
a estrada segura.
 
Quisera ser, de tua canção,
a nota certa,
o verso indispensável,
o aplauso constante.
Se não, ao menos
um lugar comum qualquer
mas teu.
Donald Malschtzky
In Cabeça de Vento

 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Agenda

 
 
 
Toda manhã
anoto uma lista
de coisas por fazer:

contas a pagar
cartas, e-mails, telefonemas
carinhos que responder
livros, palestras, entrevistas
ginástica, compras
remédios, terra, flores
consertos domésticos
desculpas, culpas
livros que ler e escrever.

Olho o que arquivo:
- o ontem só cresce
não há pasta que o contenha.
Melhor seria dissolvê-lo
ignorá-lo sem etiqueta
sem tentar decodificá-lo
entendê-lo.

Vai começar a girândola
de um novo dia.
Ponho o sol na alma
vejo da janela
- a lagoa e o mar.

Olho o presente, o futuro.
Mas o passado, que não passa
como agendar?

Affonso Romano de S'Antanna,

terça-feira, 28 de maio de 2013

O Livro...

 
O livro é a casa
onde se descansa
do mundo.

O livro é a casa
do tempo,
é a casa de tudo.

Mar e rio
no mesmo fio,
água doce e salgada.

O livro é onde
a gente se esconde
em gruta encantada.

Roseana Murray

sábado, 25 de maio de 2013

terça-feira, 21 de maio de 2013

domingo, 19 de maio de 2013

Alma Serena

 
 
Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

Não me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto fácil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, água corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.

Fernanda de Castro

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Quando Te Dói a Alma

 
 
Quando estás descontente,
quando perdes a calma
e odeias toda a gente,
quando te dói a alma,

quando sentes, cruel,
o prazer da vingança,
quando um sabor a fel
te proíbe a esperança,

quando as larvas do tédio
te embotam os sentidos,
e o mal é sem remédio
e a ninguém dás ouvidos,

nega, recusa a dor,
abandona o deserto
das almas sem amor
e mergulha o olhar
em tudo o que está certo,
o mar, a fonte, a flor. "

Fernanda de Castro

segunda-feira, 13 de maio de 2013

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Borboletas Brancas

 
Borboletas brancas
pairam
no útero da tarde
 
libertam
o Sonho oculto
no seio da Saudade.

 
Dora Gago

domingo, 5 de maio de 2013

terça-feira, 30 de abril de 2013

O Poema

 
 
O poema nasce nu.
Tento vesti-lo com palavras.
O que escrevo nada mais é do que vestimenta rudimentar
que minhas mãos conseguem compor para o poema de minha alma.
Creio que nunca conseguirei mostrar a poesia em seu estado original.
Talvez porque não seja capaz de senti-la essencialmente.
Que versos escreverei que possa encantar,
se nada em minha alma rima com o que vejo?
Vejo? Sim, com olhos da alma, vejo.
É tudo tão novo e denso. Tão antigo e sutil. Tão vibrante e calmo.
Que poema surgirá de onde não há rimas,
de onde ainda não nasceram palavras?
Palavras são pedras que tateio a esculpir um poema.
Mas o poema não está nas pedras, que são poemas de Deus.
Poemas são colheitas da alma.
Colho a poesia na noite. A noite mata-me as horas.
O poema vive, nu.

Eu, a morrer de poesia.

Helen Drumond

sexta-feira, 26 de abril de 2013

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Não Liga, Não


Não liga não! a vida é mesmo assim.
Há tempo de chegar, de ir embora,
há tempo de sorrir, para quem chora,
tempo de ser começo e de ser fim.

Planta rosa vermelha no jardim
e esquece o preto-e-branco que há lá fora.
Aquece o coração, cantando, agora,
um soneto, ao amor dizendo "sim"!

Não liga não! A vida tem seu preço:
a cada novo fim, novo começo.
Recomeça a viver o amor, então!

Se voltar a vivê-lo não tem jeito
renasce o amor antigo no teu peito,
E se ela não voltar, não liga não!

Ronaldo Cunha Lima

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Nuvens

 
 
Nuvens
desmanchadas em gotas
procuram o chão,
ressequido,
como quem procura
destino feliz.

E neste destino
descobre carências
e sonhos
e sede.

Completam-se, assim,
como nunca,
busca e espera,
saudades e presença.

Destinos!

AC Rangel

domingo, 14 de abril de 2013