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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Jean-luc Cornec

O artista chama-se Jean-luc Cornec e as ovelhas encontram-se no Museu de Comunicações em Frankfurt.Cada uma delas é feita de telefones e fios.
Esta é uma das mostras de arte contemporânea mais imaginativas, inteligentes, inusitadas e bem conseguidas dos últimos anos. A exposição abre o diálogo sobre a importância da arte, do design e da criatividade no que toca à reutilização dos mais diversos materiais, com fins ecológicos e não só.





quarta-feira, 18 de julho de 2012

Personagem



Teu nome é quase indiferente
e nem teu rosto já me inquieta.
A arte de amar é exactamente
a de se ser poeta.

Para pensar em ti, me basta
o próprio amor que por ti sinto:
és a ideia, serena e casta,
nutrida do enigma do instinto.

O lugar da tua presença
é um deserto, entre variedades:
mas nesse deserto é que pensa
o olhar de todas as saudades.

Meus sonhos viajam rumos tristes
e, no seu profundo universo,
tu, sem forma e sem nome, existes,
silêncio, obscuro, disperso.

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,
teu coração, tua existência,
tudo - o espaço evita e consome:
e eu só conheço a tua ausência.

Eu só conheço o que não vejo.
E, nesse abismo do meu sonho,
alheia a todo outro desejo,
me decomponho e recomponho.


Cecília Meireles

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Soneto (Trinta )


Quando à corte silente do pensar
Eu convoco as lembranças do passado,
Suspiro pelo que ontem fui buscar,
Chorando o tempo já desperdiçado,

Afogo olhar em lágrima, tão rara,
Por amigos que a morte anoiteceu;
Pranteio dor que o amor já superara,
Deplorando o que desapareceu.

Posso então lastimar o erro esquecido,
E de tais penas recontar as sagas,
Chorando o já chorado e já sofrido,

Tornando a pagar contas todas pagas.
Mas, amigo, se em ti penso um momento,
Vão-se as perdas e acaba o sofrimento.


William Shakespeare

sábado, 14 de julho de 2012

Deixe Em paz Meus Sonhos



Deixe em paz meus sonhos
eles andam solitários,
cansados,
sem luz.
Deixe que eu encontre neles
o caminho
e bem baixinho
cante uma canção
para que meu coração
volte a sonhar
e meus sonhos
façam ninho ao luar.

RibeiroTerra

quinta-feira, 12 de julho de 2012

terça-feira, 10 de julho de 2012

domingo, 8 de julho de 2012

Quero Um cavalo de Várias Cores


Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?


Reinaldo Ferreira

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Pretexto



Por que não cai à noite, de uma vez?
- Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai à noite, de uma vez?
- Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)


Maria Alberta Menéres

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Doris Joa

Doris Joa é um artista alemã. Ela tem uma grande paixão pela natureza e sua beleza. Começou com a pintura em 2002 e é em grande parte autodidata e aprendeu através de livros e alguns DVD. Seus quadros são aquarela e óleo e seu objetivo é pintar no realismo romântico. Um de seus temas preferidas são flores, especialmente as rosas e trabalho figurativo.

















Rosas

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ó Noite, Porque Hás-de Vir Sempre Molhada!



Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!
Porque não vens de olhos enxutos
e não despes as mãos
de mágoas e de lutos!

Poque hás-de vir semimorta,
com ar macerado e de bruxedo,
e não despes os ritos, o cansaço,
e as lágrimas e os mitos e o medo!

Porque não vens natural
Como um corpo sadio que se entrega,
e não destranças os cabelos,
e não nimbas de luz a tua treva!

Poque hás-de vir com a cor da morte
- se a morte já temos nós!
Porque adormeces os gestos,
porque entristeces os versos,
e nos quebras os membros e a voz!

Porque é que vens adorada
por uma longa procissão de velas,
se eu estou à tua espera em cada estrada,
nu, inteiramente nu,
sem mistérios, sem luas e sem estrelas!

Ó noite eterna e velada,
senhora da tristeza, sê alegria!
Vem de outra maneira ou vai-te embora,
e deixa romper o dia!


_Eugénio de Andrade_

sábado, 30 de junho de 2012

Chovia...Chovia...




Naquela tarde, como chovia!

Me lembro de que a chuva caia
lá fora
sem parar,
e seu surdo rumor até parecia
um sussurro de quem chora
ou uma cantiga de embalar...

Me lembro de que tu chegaste
inquieta, ansiosa,
mas logo te aconchegaste
em meus braços, quietinha...
(...enroladinha como uma gatinha...)

E eu quase não sabia que fazer:
se de encontro ao meu peito te deixava adormecer...
se te mantinha acordada, para seres minha...

Me lembro que chovia, chovia sem parar...
E que a chuva caía a turvar as vidraças
anoitecendo o quarto em tons baços...
Me lembro de que te sentia
aconchegada em meus braços...
Me lembro de que chovia...
E de que era bom porque chovia,
e porque estavas alí, e porque eu te queria...
Sim, me lembro que tudo era bom...
E que a chuva caía, caía,
monótona, sem parar,
naquele mesmo tom...

Naquela tarde, amor, como chovia!

Agora, quando longe de ti, nem sou mais eu
em minha melancolia,
não posso mais ouvir a chuva cair
que não fique a lembrar tudo que aconteceu
naquele dia...

Naquele dia
enquanto chovia...


J.g. De Araújo Jorge

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Falando de Amor - Tom Jobim -



Se eu pudesse por um dia
Esse amor, essa alegria
Eu te juro, te daria
Se pudesse esse amor todo dia
Chega perto, vem sem medo
Chega mais meu coração
Vem ouvir esse segredo
Escondido num choro canção
Se soubesses como eu gosto
Do teu cheiro, teu jeito de flor
Não negavas um beijinho
A quem anda perdido de amor
Chora flauta, chora pinho
Choro eu o teu cantor
Chora manso, bem baixinho
Nesse choro falando de amor

Quando passas, tão bonita
Nessa rua banhada de sol
Minha alma segue aflita
E eu me esqueço até do futebol
Vem depressa, vem sem medo
Foi pra ti meu coração
Que eu guardei esse segredo
Escondido num choro canção
Lá no fundo do meu coração


António Carlos Jobim (Poeta, compositor, músico brasileiro, 1927-1996)


terça-feira, 26 de junho de 2012

O Teu Olhar nos Meus Olhos



Sempre onde tu estás
Naquilo que faço
Viras-te agarras os braços

Toco-te onde te viras
O teu olhar nos meus olhos

Viro-me para tocar nos teus braços
Agarras o meu tocar em ti

Toco-te para te ter de ti
A única forma do teu olhar
Viro o teu rosto para mim

Sempre onde tu estás
Toco-te para te amar olho para os teus olhos.

Harold Pinter

domingo, 24 de junho de 2012

São João Sertanejo - Cordel -


Quando eu tive no sertão
Na casa de vó Maria
Era tempo de São João
Tempo de muita alegria.
A gente tomava banho
com uma cuia de cabaça,
Quando tinha gia e rã
Na cacimba era uma graça.

E quando era de noite
A gente se reunia
Pra brincar de cai no poço
De passeio e de cutia.
Brinca de roda e anel
Era tão boa a folia!
E de galhinho de amor,
Meu coração sofredor
Por alguém já se roía.

Era funaré danado
Quando a chuva caía:
Nós corríamos nas matas,
Por onde o córrego seguia,
Nós pescávamos traíra,
Curimatã e piaba
Pra de noite em fogo à lenha
A gente comer assada.

Então com os açudes cheio
Nós andavamos de canoa.
A mata cinza era verde,
Êta que vidinha boa!
E aos domingos nós íamos
Visitar muitas pessoas,
Gente que pisava milho
Ainda em meus ouvidos,
Àquela batida soa.

Assim chega o grande dia
A noite tão esperada,
Na casa da Vó Maria
A banda já se instalava.
Eu olhava para as serras
Pras veredas encravadas.
A mata tão colorida,
Que tanta gente bonita,
Que pro forró já chegava.

Então foi às sete horas
Que a sanfona começou.
A fogueira estalava,
No terreiro, sim senhor.
O povo todo dançando,
Gonzagão a entoar.
Êta que festança boa,
Eu gritava pras pessoas
Quero me mudar pra cá.


Manoel Messias Belizario Neto

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Xi Pan

Xi Pan, que nasceu em Wenzhou, China, começou seus estudos em 1989 na Academia Nacional de Belas Artes em Hangzhou. Um ano mais tarde, foi transferida para a Academia de Belas Artes de Moscou, onde conquistou seu diploma. Desde então, viveu na Europa e nos Estados Unidos trabalhando como artista profissional. Atualmente, vive em Hangzhou, na China













quinta-feira, 21 de junho de 2012

Balada Da Neve



Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
. Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Pássaro Azul


Há um pássaro azul
no meu coração que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar ninguém ver-te.
Há um pássaro azul
no meu coração que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso não estejas triste.
Depois, coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos assim
com o nosso pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?


Charles Bukowski

segunda-feira, 18 de junho de 2012

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Sonetilho do Falso Fernando Pessoa


Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.
Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.
Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,
eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 12 de junho de 2012

Alphonse Osbert , o Pintor do Silêncio

Alphonse Osbert (1857 - 1939) foi um pintor francês que estudou na École des Beaux-Arts e nos estúdios de Henri Lehmann, Cormon Fernand e Bonnat Léon. O impacto do impressionismo encorajou-o a aliviar sua paleta e pintar paisagens ao ar livre, tal como nos campos de Eragny. Até o final da década de 1880 ele havia cultivado a amizade de vários poetas simbolistas e do pintor Puvis de Chavannes, que o levou a abandonar a sua abordagem naturalista e adotar o idealismo estético da pintura poética. Abandonando temas da vida diária, Osbert teve como objetivo transmitir visões interiores e desenvolveu um conjunto de símbolos pictóricos. Inspirado por Puvis, simplificou formas da paisagem, que serviram como pano de fundo para figuras estáticas e isoladas dissolvidas numa luz misteriosa. A técnica pontilhista, emprestada de Seurat, um amigo do estúdio de Lehmann, desmaterializou formas e acrescentou luminosidade.O ideal Rosacruz de "arte como a evocação do mistério, como a oração" encontra sua melhor expressão na figura virginal da fé, muitas vezes interpretada tanto como Santa Genoveva ou Santa Joana, situada num prado com um cordeiro e enredada em um brilho sobrenatural. Tais trabalhos foram elogiados por escritores simbolistas que o consideravam o "pintor da noite", um "artista da alma" e um "poeta do silêncio" devido a sua evocação de um clima de mistério e fantasia.



A pintura abaixo foi apresentada no Salão da Société Nationale des Beaux-Arts em 1892, antes de ser exposta no segundo Rose+Croix Salon que reuniu a elite dos artistas simbolistas. Uma apresentação posterior do trabalho, em 1899, fornece mais informações sobre a imagem: uma visão de Santa Genoveva, a padroeira de Paris.
Como muitas das pinturas de Osbert, esta usa uma faixa de azuis sem tentativas de realismo e nenhum desejo de ilustrar o papel do santo na defesa de Paris. Diferente da tradicional pintura religiosa, este trabalho, que atraiu muitos comentários de jornalistas e amantes da arte, foi considerado uma ilustração de um estado de alma.